Tomei à frente a folha, branca como as nuvens que se desfazem, fiz-me servir a Deus. Dionísio logo se acercou e, sentando-se a meu lado, pôs-se a rir de meu tremor e busca. - Toma no peito o indizível, disse-me. - Põe quanto és no abismo que adentras, e emerge do escuro nos tipos. Custei a entender que Dionísio fora enviado por Deus, o universo. Dionísio, o irmão misterioso, falava-me cifrado. Ao menos eu, no incerto de minhas letras esparsas, não entendi à quais tipos ele se referia. Sem perder tempo, busquei na superfície do conselho algo com o qual pudesse desenhar palavras, mas não encontrei. Tentei imaginar figuras, tipos característicos, algo com que pudesse bordar imagens na folha. Tudo o que consegui foi relembrar o poeta, pois tudo ou sobrou ou foi pouco. Dionísio, da janela, bebia seu vinho a espiar a chuva de Deus.
Inquieto, meu coração não se aquecia, e nem as vestes brancas, nem as luzes acesas e a chuva intensa, atracavam-me palavras. A chegada de Dionísio era o teste de Deus, e eu não entendia. Estava decidida: não perderia a paciência, inventaria traquejos pra decifrar o conselho. Levantei-me da mesa de trabalho e andei alguns passos pela sala. Sentei-me sobre o sofá, afastei as almofadas e estiquei a coluna, ajustei a respiração. De olhos fechados, enquanto percorria o labirinto no qual não me ocorria imergir, tudo o que eu sabia era que há tempos não escrevia. Há tempos as palavras se escondiam, crianceiras e rebeldes, na estiagem da entrega. Deus não fluía no meu interior.
Não, Deus não se põe onde não há vazio. Meu coração estava pleno, pleno de amor demais. Meu corpo estava pleno de todas as horas, as horas plenas de todas as coisas, e todas coisas estavam plenas de sins e nãos e ses e quês. A cada respiração mais lenta minha consciência se acendia, e ao mesmo tempo em que o mistério se apagava, é como se algo brotasse de uma terra incógnita, como sopro de um vento que fazia variar duna meu lugar seguro. Foi como se meu espírito se pusesse a dançar, e do fundo de seu sem fundo, dos poros saíssem asas. Quando abri os olhos, Dionísio havia partido, e a chuva cessara. Eu saberia voar.





