Março 15, 2012

Da escrita e do conselho

Para Clarice, com a consciência acesa.

Limpei as vestes, como sugeriu o conselho. Vesti-me de branco e acendi as luzes. Não temi a Deus, mas clamei-o como irmão, o universo. Deus, o universo, generoso e fraterno, fez-se uma densa chuva que alagou as praças, as ruas e as calçadas, e inundou meu horizonte de palavras. Palavras líquidas, por certo. Escorregadias como peixes, úmidas, como terra fértil. Deus enviou-me a enxurrada para que de meu lugar seguro eu visse, no rio que corre em margens tresmalhadas, a profundeza da escrita.
Tomei à frente a folha, branca como as nuvens que se desfazem, fiz-me servir a Deus. Dionísio logo se acercou e, sentando-se a meu lado, pôs-se a rir de meu tremor e busca. - Toma no peito o indizível, disse-me. - Põe quanto és no abismo que adentras, e emerge do escuro nos tipos. Custei a entender que Dionísio fora enviado por Deus, o universo. Dionísio, o irmão misterioso, falava-me cifrado. Ao menos eu, no incerto de minhas letras esparsas, não entendi à quais tipos ele se referia. Sem perder tempo, busquei na superfície do conselho algo com o qual pudesse desenhar palavras, mas não encontrei. Tentei imaginar figuras, tipos característicos, algo com que pudesse bordar imagens na folha. Tudo o que consegui foi relembrar o poeta, pois tudo ou sobrou ou foi pouco. Dionísio, da janela, bebia seu vinho a espiar a chuva de Deus.
Inquieto, meu coração não se aquecia, e nem as vestes brancas, nem as luzes acesas e a chuva intensa, atracavam-me palavras. A chegada de Dionísio era o teste de Deus, e eu não entendia. Estava decidida: não perderia a paciência, inventaria traquejos pra decifrar o conselho. Levantei-me da mesa de trabalho e andei alguns passos pela sala. Sentei-me sobre o sofá, afastei as almofadas e estiquei a coluna, ajustei a respiração. De olhos fechados, enquanto percorria o labirinto no qual não me ocorria imergir, tudo o que eu sabia era que há tempos não escrevia. Há tempos as palavras se escondiam, crianceiras e rebeldes, na estiagem da entrega. Deus não fluía no meu interior.
Não, Deus não se põe onde não há vazio. Meu coração estava pleno, pleno de amor demais. Meu corpo estava pleno de todas as horas, as horas plenas de todas as coisas, e todas coisas estavam plenas de sins e nãos e ses e quês. A cada respiração mais lenta minha consciência se acendia, e ao mesmo tempo em que o mistério se apagava, é como se algo brotasse de uma terra incógnita, como sopro de um vento que fazia variar duna meu lugar seguro. Foi como se meu espírito se pusesse a dançar, e do fundo de seu sem fundo, dos poros saíssem asas. Quando abri os olhos, Dionísio havia partido, e a chuva cessara. Eu saberia voar.

Setembro 08, 2011

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

Pouco me importa
Alberto Caeiro
Poemas Inconjuntos

Maio 05, 2011

A procura de um lugar

Estamos sempre à procura de um lugar, e estamos presentes - mesmo na ausência, estamos presentes. Uma presença luminosa, uma ausência que vê. Vê de entremeio, entrecortada, composta e fragmentada, a procura de um lugar. Um lugar que se more e transite, que não se esvaia nem se esgote, tampouco se acomode. Como não mover o lugar de um móvel, como reter o que resiste, se varia? Estamos sempre à procura de um lugar que nos move.

Fevereiro 19, 2011

[Cartas a Théo]

Meu caro Théo,

Há algo que me atormenta e que eu quero lhe contar; talvez você já esteja a par, e eu não lhe conte nenhuma novidade. Eu queria lhe dizer que neste verão comecei a amar K. Mas quando me declarei, ela me respondeu que seu passado e seu futuro permaneciam inseparáveis para ela, e que jamais ela poderia corresponder aos meus sentimentos.

Tive então que resolver um terrível dilema: resignar-me a este ‘jamais, não, jamais’ ou considerar a coisa como não resolvida, guardar boas esperanças e não me resignar? Escolhi esta última hipótese.Enquanto isso continuo a trabalhar duro, e desde que a encontrei meu trabalho está bem mais fácil. [ ]

Acontece-lhe, às vezes, Théo, de ficar apaixonado? Eu gostaria que isto lhe acontecesse, pois, creia-me, as pequenas misérias também tem seu valor. Às vezes ficamos desolados, há momentos em que acreditamos estar no inferno, mas há ainda outras coisas, e melhores. Pois bem, old boy, fique também apaixonado e conte-me por sua vez, seja amável num caso como o meu e mostre-me simpatia.

Etten, setembro de 1881

Fevereiro 17, 2011

Janeiro 24, 2011

Aleatório Tudo permaneceu no lugar desde a tua partida. Nada permaneceu igual.

Dezembro 12, 2010

Um sopro

Por nós.

Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos.

Rainer Maria Rilke

Tirou do bolso um livro sagrado, e me deu. – Aprenda a respirar, é um exercício e um segredo, disse. Li as pequenas letras douradas do título e me incomodei um pouco com a verdade. Guardei-o na bolsa e sorri. – Vai te fazer bem, disse. Não respondi. Mas pensei que se houvesse algo que naquele instante pudesse me fazer bem, certamente não seria a verdade.

Silenciamos por um tempo no caminho de ida, e no caminho de volta, a volta parecia não ter fim. Tudo que eu podia pensar era que as horas feitas de finuras e afins findavam. Tentei dissipar o pensamento em olhares voláteis, observando sem deter-me nos detalhes a paisagem que se abria num horizonte de acasos, como aquele que nos fizera cúmplices. Mas não existem acasos, e eu bem sabia. Voltei ao pensamento com certo desconcerto, certa de que a razão é insuficiente e de que a vida é mais misteriosa e fatal do que qualquer oráculo jamais poderia prever.

No limite do razoável nos contemplamos cansados, fatigados de silêncio e fim. Eu lamentava nosso encontro em descomeço, no avesso do que é vida e se esvai. E então partimos, por entre escolhas e abismos, partidos de nós, divididos e doídos e um pouco fracos.

Ali eu pressentia a inconstância no passar dos dias, as contrações e os contra-sensos de um corpo que desaprende o movimento de expansão, e apenas contrai. Eu temia não mais vibrar, temia perder o contorno e dissipar na ausência de gestos qualquer possibilidade de recomeço, de re-contexto. Numa fração de segundos, enquanto eu assuntava sensações e pensares, nos despedimos; ambos sabendo que olhar pra trás seria o adiante, até que o mundo desse conta de girar um pouco e a gravidade nos devolvesse ao centro.

Do que faltava, escolhi o caminho mais longo, que faria em passos curtos e pensando no que acontecia, buscando encontrar um sentido no meio do que concretamente parecia ser o caos. Pincei todos os momentos e memórias, da infância ao inferno. Naquela manhã ao acordar, com os raios de sol ainda tímidos e mansos a perpassar as frestas da persiana entreaberta, delineei um esforço quase sem forças de levantar-me. Ao estender o braço em direção ao relógio derrubei sem querer a escultura. Mais cacos, balbuciei sonolenta. Era um dragão, um pequeno dragão que vivia comigo. Tinha nos pés garras, como uma águia, e também asas. Inclinei-me à beira da cama e vi que a cauda havia quebrado. Não me soava um bom presságio, ouvi dizer que dragões sem cauda simbolizam perdas. Mas como eu de fato estava perdida, me ri do universo e levantei, ia encontrá-lo.

Coincidências não existem, e eu bem sei. Dragões simbolizam a força primitiva e ancestral, estão ligados à criação do mundo. Um dragão tanto pode ajudar quanto destruir, proteger ou corroer, são ambíguos os dragões. São como gente, não? Talvez mais livres.

À medida que me aproximava do porto e a tarde caía, a bruma ia invadindo as ruas, engolindo o horizonte. Olha o sopro, pensei; ao mesmo tempo em que inspirava lentamente o ar e aspirava o mistério. O sopro, eu quase ouvia. Havia lido em uma antiga lenda chinesa que quando a bruma cai, é porque os dragões estão soprando. Eles chegam, quando a bruma desce. Eu andava reto, mas pensava em círculos, certa de que não era acaso. O dragão chegava e aniquilava a própria cauda, indicando o fim e o começo de um novo ciclo, como a serpente.

Não sacrifiquemos o respiro, a verdade é um problema. Deixa-me construir a casa com telhado reclinado, pra que o dragão que voa longe, descanse.


Novembro 16, 2010

Uma carta, uns cortes.

Para o Sal, um brinde.

If I were a good man, I’d understand the spaces between friends.

Cai uma chuva densa e rouca, entre trovões e travas. Aquelas, de que te falava outrora, e que exorcizo aos fiapos nessa escrita. Fico pensando se alguém mais terá pensado se, ao publicar uma carta num blog ela terá deixado de ser uma carta. Será? Não uma carta que já foi escrita antes e enviada, e que depois de um longo tempo e um pouco de prestígio sai dos baús do anonimato e vira evento. Mas isso não tem importância. É só uma questão cruzada, preocupação com o que seja uma carta de verdade. Verdade, verdade... discussão que nunca acaba, não é verdade? Sim, sim. Tu dirias não ter sido claro o suficiente e eu diria... eu diria o mesmo. Porque é mais simples compartilhar melancolias do que acompanhar raciocínios, não é verdade? Mas afinal, qual era mesmo o assunto dessa carta? Ah, sim, na verdade não importava o assunto, mas o ato. Já que o assunto não tem importância, vou falar do desimportante. Porque eu gosto do desimportante, de verdade. Ah, tantos anos e nenhuma análise. Tanta vida, e tantos cortes. O que tio Freud diria de um sonho que se sonha só, meu caro? Viu como eu flutuo só na superfície? Só, na superfície. Quando chegarem as gentes, dear, diga que vivo meu avesso. Essa frase não é minha, mas isso também não tem importância. Aliás, nada aqui tem importância. Só fraseio com a linguagem que me ausenta do que possa decifrar. E gosto.

PS: teu conselho virou bilhete.


Outubro 27, 2010

[ ]

Julho de 1880

Meu caro Théo,

É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. Até certo ponto, você se tornou um estranho para mim, e eu também talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É possível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinquenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo?
E é portanto para agradecer que lhe escrevo. [ ]
O que para os passaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isto não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja. [ ]
Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos. [ ]
Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão. Você poderá entender isto. [ ]
Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário. Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, a medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a ideia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos. [ ]
O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora em que alguém desejará aproximar-se - e ficar? [ ]
Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isso como um ganho, ficaria contente, e diria: "Enfim, afinal, havia alguma coisa". [ ]
Um pássaro na gaiola sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: "Os outros fazem seus ninhos, tem seus filhotes e criam a ninhada", e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. [ ]
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será isto tudo imaginação, fantasia? Não creio; e então perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? Você sabe o que faz desaparecer a prisão.

Do seu,
VINCENT




Outubro 14, 2010

Mis aforismos son notas marginales [ ] Con ellos no se podría, estrictamente, hacer otra cosa que no fuera sufrirlos y olvidarlos. Publicarlos es, tal vez, la manera más universal y contradictoria de conseguir ambas cosas.
Julio Cabrera

Ao som de Otto,
6 minutos

Desarruma tudo, sem saber de mim, Desarruma rumo, rumino eu, no silêncio e grito da escrita que falha e treme. E teme um tanto. Aqui por fora é só silêncio e limbo do que não digo, do que não dizes. Do que te guardas de mim, de ti.
Com descoberta ele disse, um dia, que a saudade é nossa, pois nenhuma outra língua traduz 'sentir falta de' com apenas uma palavra. Mas a saudade não cabe, nem em três palavras, nem em uma. Saudade é desnome, nome de ausência. Só é boa pro poeta, que verseja. não sei ser poeta
Não tenho escrito porque tenho pensado demais na escrita. No momento em que me sento a escrever a sensação se perde e eu raciocino, e morro. Trago a cesta cheia de uma colheita fértil, mas é como se eu
quisesse nascer e não conseguisse. Tomo consciência de todas as tintas sobre a mesa e da dificuldade de terminar o que começo. Sou engolida pelo instante que não colore nem fraseia, mas congela, e é porque eu tenho insônia que recorto esses retratos, num jogo exausto de adivinhação e espanto. Me basta ler, reler, ruir. Tenho adiante um silêncio cruzado, algumas questões sem resposta e todos os caminhos para dentro, ao que não sei seguir. Na esquina eu vejo ruínas, meu olhar alcança.

Setembro 29, 2010

Noir

Impossível amanhecer. Ou não?

Depilei as axilas, as pernas, a púbis, os pelos. Raspei a sobrancelha e os cabelos. Não me reconheço. Revejo meu itinerário, limpo os armários, os bolsos, o peito. Levo na lágrima o filho que não tive e o bom filho que não fui. E outros.

Sonhei que todos os livros foram roubados.
Tentei ler nas mãos linhas apagadas e nos olhos a palavra que se cala no lugar que não alcanço. A terra não tem sido leve.

[ ]

These people had a kind of courage that may be the
finest gift of man: the courage of those who simply
keep on, and on, doing the next thing, far beyond all
reasonable endurance, seldom thinking of themselves
as martyred, and never thinking of themselves as brave.







Der Stand der Dinge
Wim Wenders
1982

Setembro 02, 2010

Andei amargo, andei achando inútil escrever, andei travado por mil coisas de dentro e de fora.

Caio F.



Escorpião

Gosto de teu nome, monossílabo.

Para Nietzsche,
com astúcia e vingança.

Sai sob o sol escaldante de um deserto. A atmosfera quente e úmida de fim de agosto o levando para fora dos limites de um terreno que se dissipa aos poucos. Não morrer, de amor ou de morte.

Penso nos movimentos que se realizam, nos deslizes que balançam pequenos delitos. Pequenos surtos. Ou grandes surtos. Quem sabe.
Penso nos desvãos aos quais dou vez, nos espelhos que desforram o que sei de mim. e atravesso

Dissestes não haver coincidências, com um sorriso leve e firme e uma estranha clareza nos olhos. Respondi desconexa que ninguém jamais escrevera prólogos tão belos, tinha entre as mãos o mais altivo e zombeteiro dos filósofos, a rir de si.
Literatura armada, eu quero. Um arsenal de desvarios alegres, coisas mágicas, todos os santos. Sto Rambo, Sto Bowie, Sta Woolf, Sta Frida, Nossa Sra do Eterno Retorno... Todos os santos. E um pouco de prestígio.

Quem sabe é pouca literatura e vinho barato. Um bilhete datado e uma caligrafia que poderia ser bêbada. Guardo papéis soltos e pequenas esculturas. grandes esculturas. todas, as esculturas.
Deixa-me algo para que quando eu acorde te tenha à vista do olhar ou das mãos. O inverno se vai, está se indo, talvez já tenha ido. Leva tempo? Leva tempo.



Agosto 08, 2010

[ ]

Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto que em mim se prepara, dentro desse fruto que é suculento, há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para pressentir.

Clarice Lispector
Setembro de 1967
A descoberta do mundo

Agosto 04, 2010

Todavia tolices.

Sempre que recordo o desprender daquela manta é como se o inverno ainda não fora embora. Seria só o inverno se não fosse aquele nó de fumaça e gim que me dizia fale-me de você naquela noite fria, em que eu ficara como que paralisado e com medo, com medo de não saber o caminho de volta pra casa. Todos aqueles jovens com sua solidão e cigarros e naquela altura já não me convinha estar sozinho, eu que ali entrei pela canção, lembro que naquela noite fazia frio e eu senti um sopro, lembro-me que senti um sopro de abismo ao passar em frente à porta e lembro-me de que a fumaça me chegou dizendo I could be your lover, I could be your friend... e então eu fui até a porta e vi toda aquela gente e tanta fumaça e pensei que
Fui até o bar e observei os rostos tão estranhos e brancos e ali fiquei, por uns minutos. Hesitei em pedir uma dose, suspenso a observar os rostos e os corpos e o figurino cretino do Fred Mercury na tela. Acendi um cigarro entre o som alto e impressões de riso baixo, todos pareciam tão indiferentes mesmo quando falavam entre si e riam de coisas que eu não sabia. Muitos pediam passagem, eu estava ao canto cantarolando baby it's all right, honey it's all right entre o espelho o bar a janela e a tela, de modo que podia ficar onde estava e tudo acontecer. Então fumei a pensar que seria bom conhecer alguém naquela noite ali ali mesmo a esmo, ou não tão a esmo assim e foi aí que de repente sem ao menos ter tido tempo de pegar aquela dose que apareces súbito, como uma bomba.
Tropeçou nos meus sapatos e me estendeu a mão pedindo fogo. Lembro que fitei teus lábios tão mais pálidos que os demais mas tinhas maçãs um pouco mais rosadas e olhos tão terrivelmente castanhos que se confundiam com o abrigo marrom que envolvia o pescoço. Então naquele instante tudo parecia fazer sentido embora eu já não soubesse bem ao certo se algo deveria fazer sentido, ou não. A verdade é que eu permaneci calado e suspenso, algo como uma língua estranha que eu nunca houvesse ouvido me deixava tonto e aquela música que tocava agora e você parado à minha frente me olhando fundo com um cigarro que levava aos lábios com um quê de demasiada simpatia. E foi aí que se aproximou do meu ouvido e disse fale-me de você com uma voz arranhada e quase erótica e então eu me senti completamente frouxo e mudo e tolo e respondi com uma voz baixa e quase rouca que eu estava ali somente porque não poderia estar em outro lugar. Não agora não naquela hora não naquele instante. E tudo mais que pensei foi pouco ou sobrou e eu permaneci calado por alguns segundos, lisérgico. Então alguém te chama e estende a mão e vocês se cumprimentam com um sorriso aberto e calmo e ali eu vi seus dentes brancos e perfeitamente dispostos e senti vertigem e um desejo de desprender aquela manta e tatear tua nuca e
Tentei acreditar que tudo aquilo não poderia estar acontecendo e saí ,como quem foge. Parei ao lado da porta e acendi um cigarro deixando que a parede de tijolos expostos segurasse meu corpo trêmulo de frio e fuga e medo e desejo. Mas pensei que não poderia sair assim sem vê-lo novamente sem ao menos saber como se chama sem ao menos
Entrei. Procurei-o discretamente no meio da nuvem de fumaça e pele e me senti tonto quando vi que você também me via e me via o vendo e eu sabia que não saberia o que fazer se você viesse agora interrompendo qualquer coisa inacabada em mim qualquer pensamento em desconcerto e então novamente a vertigem e novamente o medo e novamente tudo aquilo cada vez mais perto. E foi então que você veio.

Agosto 03, 2010

Os dois lugares do conto.

Aqui ou lá.
Alhures. Acolá.
Nem aqui e nem lá.

[no caso]

Maio 22, 2010


[ ]


É inútil perguntar se Descartes tinha ou não razão. Pressupostos subjetivos e implícitos valem mais que pressupostos objetivos explícitos? É necessário "começar" e, no caso positivo, é necessário começar do ponto de vista de uma certeza subjetiva? O pensamento pode, sob essa condição, ser o verbo de um Eu? Não há resposta direta. [ ] Há um plano melhor que todos os outros, e problemas que se impõem contra os outros? Justamente não se pode dizer nada a este respeito. Os planos, é necessário fazê-los, e os problemas, colocá-los, como é necessário criar os conceitos. [ ] Certamente, os novos conceitos devem estar em relação com problemas que são os nossos, com nossa história e sobretudo com nossos devires. [ ] E se podemos continuar sendo platônicos, cartesianos ou kantianos hoje, é porque temos direito de pensar que seus conceitos podem ser reativados em nossos problemas e inspirar os conceitos que é necessário criar. [ ] Que alguém tenha tal opinião, e pense antes isto que aquilo, o que isso pode importar para a filosofia, na medida em que os problemas em jogo não são enunciados? [ ] A comunicação vem sempre cedo demais ou tarde demais, e a conversação está sempre em excesso, com relação a criar. [ ] aqueles que criticam sem criar, aqueles que se contentam em defender o que se esvaiu sem saber dar-lhe forças para retornar à vida, eles são a chaga da filosofia. São animados pelo ressentimento, todos esses discutidores, esses comunicadores. Eles não falam senão deles mesmos, confrontando generalidades vazias. A filosofia tem horror a discussões. Ela tem mais o que fazer.

Gilles Deleuze
O que é a filosofia?

Maio 10, 2010


[ ]


Diálogo entre Clarice Lispector e Carlinhos Oliveira, considerado a maior afirmação da crônica brasileira na década de sessenta.

Clarice Lispector: Quem é você Carlinhos? E por Deus, quem sou eu?
Não, fora de brincadeira, o mundo tá se acabando e nós não estamos fazendo nada. E eu, gripadíssima, e de mãos sem forças pra ajudar os que imploram. Fala Carlinhos, fala...
Carlinhos Oliveira: Bom, eu acho que você é Clarice Lispector. Mas eu não sei quem eu sou. Aliás o mundo está, cada vez mais, tá completamente fudido, sem saída. Agora, nem eu nem você temos nada a ver com isso.
CL: Isso diz você, que não tem filhos. Mas todo mundo Carlinhos, é meu filho e um filho a salvar. Como é que eu faço com tanto amor e tanta impotência? E não me refiro apenas a meus dois filhos, e sim aos filhos dos homens.
CO: Os filhos dos homens formam a humanidade, que mais ou menos há quatro milhões de anos são mandados à morte. Agora, o problema é deles, quer dizer, não há nada que eu possa fazer contra isso. Como dizem as crianças, é tudo violência e injustiça, "azar, azia, azeite".
CL: Carlinhos, nós dois escrevemos e não escolhemos propriamente essa função, mas já que ela nos caiu nos braços, cada palavra nossa devia ser pão de se comer.
CO: Isso é absurdo. Eu por exemplo, quando eu digo "filha da puta", ninguém publica. Quer dizer, estamos fadados a aguardar uma língua, nós temos uma coleção de palavras, nós somos uns idiotas... Agora, eu te pergunto uma coisa: por que você escreve? Por que você não escreve?
CL: Respondo as duas perguntas. Escrevo porque não posso ficar muda, não escrevo porque sou profundamente muda, e perplexa.
CO: Ora! Frescura né? Porra...
CL: Não, eu to falando sério. Tão a sério que você não tá suportando, e sai pelos lados, não me enfrenta.
CO: Bom, se você tá falando tão a sério Clarice, é porque falar a sério pra você tem uma importância, não? Agora, pois bem, eu não acho.
CL: Então vamos deixar tudo morrer?
CO: Não, bem...se não fizermos não é, tudo morrerá.
CL: Ai Carlinhos, vamos mudar de assunto? Porque a gripe tá piorando demais pra eu aguentar o peso das coisas. Pergunto-lhe agora: Por que você não escreve um romance?
CO: Porque eu não tenho competência pra isso.
CL: Você já tentou?
CO: Olha, todas as pessoas que não entendem a vida acreditam que a vida é feita de sucessos. Pois bem, essas mesmas pessoas adoram o Van Gogh porque ele cortou a orelha, o Toulouse-Lautrec porque ele era anão, o Rembrandt porque morreu de tuberculose, o Modigliani porque morreu de fome... O James Dean porque morreu na estrada, a Marilyn Monroe porque se matou, é claro... Agora, essas mesmas pessoas acreditam na posteridade porque elas acreditam que elas são a posteridade, to cagando pra posteridade.
CL: Anh...nós não nos entendemos. Fazer romance não é sucesso. Você até parece com aquele que dizia que a literatura é o sorriso da sociedade. Fazer sucesso é ir ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue correr. Carlinhos, nós dois gostamos um do outro, mas falamos palavras diversas...
CO: Falamos linguagens diferentes, é verdade. Agora, eu prefiro ser feliz na rua a ter que cortar a vida em dois.
CL: Eu prefiro tudo, entendeu? Eu não quero perder nada, eu não quero sequer, a opção.
CO: Não, você prefere inclusive ser uma grande escritora. Eu já há muito tempo abri mão dessa vaidade. Eu prefiro beber, comer, fazer amor, morrer. Eu não me sinto responsável pela literatura.
CL: Nem eu, meu caro. Olhe, eu também posso lhe dizer que, se viver é beber, isso é pouco pra mim, eu quero mais porque a minha sede é maior que a sua.
CO: Evidentemente.
CL: Eu gosto muito de você Carlinhos.
CO: Mas nós não estamos aqui a favor de amizade, e sim, mostrando que uma escritora como Clarice Lispector ao invés de comer e beber comigo tem que pensar estrevistas pra poder sobreviver. É por isso que eu digo o seguinte, eu digo sempre: temos que jogar uma bomba atômica na Academia Brasileira de Letras.
CL: Carlinhos, vamos terminar essa minha tentativa de sobrevivência financeira com uma coisa que não nos humilhe, hm? Faça uma chave de ouro.
CO: Tudo nos humilha. Tudo, nos humilha. Ninguém acredita em nós. Tá tudo certo pra eles, mas só nos pedem idiotices. E isso é uma chave de ouro, o resto é literatura.

De Corpo Inteiro - Entrevistas
Nicole Algranti
Brasil
2008

66'

Abril 29, 2010

Cosmogonias individuais

"Por vezes sinto vontade de rasgar-me o peito, de partir-me o crânio, ao ver de quão pouco somos capazes uns em relação aos outros."
Goethe


Um cometa me atingiu, ferido. Um cometa louco. E eu, que sempre gostei de cometas, de repente me surpreendo, tenho pedaços de cometas pelas mãos, nos ombros, e bem no meio do peito. Um cometa me atingiu. Não sei de onde vinha, nem como. Mas veio, o cometa louco.
Não sabia que cometas feriam, hoje sei. Sei que cometa comete, acomete, incomoda. Hoje sei um pouco mais sobre cometas porque um me acometeu. Sei que cometa tem gelo, só não sei o quanto. Também tem poeira e rocha, um cometa.
Descobri que o núcleo de um cometa é uma das coisas mais escuras que existe. Não gostei de saber disso. Preferia pensar que um cometa... apenas brilha, um cometa. Mas não. Isso é uma inverdade. Antes me eram mais poéticos os cometas, e eu, mais ingênua em matéria de cometas.
Hoje sei que cometas viajam. Às vezes colidem. Vem de além da órbita de Netuno, alguns cometas, e penso que de lá veio o cometa louco. Netuno tem ventos mais fortes que qualquer outro planeta. Faz sentido, penso. Se fosse um filósofo clássico ou poeta popular, diria que isso é sinal de mudança. Mas não sou nem um, nem outro. E nem sirvo pra Poliana.
Cometas explodem, às vezes. Não se sabe ao certo as causas, mas sobram pedaços por todos os lados. Tenho um bem no meio no peito.

Abril 25, 2010


[ ]


Talvez seja um elo nos permitindo passar de um sujeito para outro, para consequentemente viver junto. Mas até mesmo relações socias são ambíguas, desde que o pensamento divide tanto quanto une. Desde que palavras unem ou isolam por aquilo que elas expressam ou omitem. Desde que um imenso golfo separa minha consciência subjetiva da verdade objetiva que eu represento para outros. Desde que me responsabilizo constantemente, embora me sinta inocente. Desde que cada evento transforme minha vida diária. Desde que constantemente eu falhe em comunicar, desde que cada falha me faça ciente da solidão. Desde que.
Desde que eu não possa escapar esmagando objetividade ou isolando subjetividade. Desde que não possa elevar ao estado de ser ou cair na inexistência, eu devo escutar, devo olhar ao redor mais do que nunca. O mundo, meu parente, meu gêmeo. O mundo. Sozinho.
Hoje, quando revoluções são impossíveis e guerras me ameaçam, quando o capitalismo está incerto quanto a seus direitos e a classe que trabalha recua, quando o progresso relâmpago da ciência traz o futuro inevitavelmente próximo, quando o futuro é tão próximo quanto o presente, quando galáxias distantes estão à minha porta [ ] Para dizer que os limites da linguagem, de minha linguagem, são aqueles do mundo, de meu mundo e aquele que está na fala. Eu limito o mundo. E o termino. E quando misteriosa, a morte lógica revoga estes limites, já não haverá nenhuma pergunta, nenhuma resposta, apenas divagação. Mas se as coisas são novamente enfocadas, isso só pode acontecer através do renascimento da consciência. Tudo segue isso.

Jean-Luc Godard
2 ou 3 choses que je sais d'elle
1967